Cegueira Botânica

Nas minhas caminhadas pela cidade, observo muito as plantas que encontro pelo caminho. É um hábito que adquiri nos últimos anos. Em geral, sempre observei a arquitetura, principalmente as casas antigas (que sigo observando e admirando) e deixava passar batido o verde urbano. Eu, provavelmente, fui vítima da “cegueira botânica”, uma expressão usada no meio científico e acadêmico para descrever a nossa inabilidade em ver ou perceber as plantas no ambiente em que estamos.

Hoje, não apenas percebo, como gosto de parar e observar. Não sei identificar 99% das plantas que eu vejo, mas tenho buscado aprender, conhecer mais, perguntar em grupos de identificação botânica na internet. Os meios digitais são de imensa ajuda para quem quer conhecer mais das plantas. Nem sempre a resposta vem rápida e certeira e, muitas vezes, nem consigo fazer a identificação. Mas isso faz parte do processo.

Planta fotografada em rua de São Paulo que não consegui identificar!

O importante é se abrir para esse universo. E podem acreditar que apesar de todo o concreto, a cidade oferece inúmeras possibilidades de conhecer plantas. Chega a ser quase inusitado pensarmos nisso, mas é verdade. Eu jamais soube identificar uma pata-de-vaca ou flor de são joão, ou mesmo uma paineira. Hoje, já sei. E, para além disso, sou capaz de ficar alguns minutos parada na frente de uma árvore somente observando os detalhes.

Sobre a cegueira botânica

A primeira vez que ouvi o termo “cegueira botânica” foi durante uma entrevista com o biólogo Anderson Santos para essa matéria que saiu no Projeto Draft. Ele me falou sobre o termo, que foi cunhado pelos botânicos e educadores Elisabeth Schussler e James Wandersee em 1998.

Algumas explicações possíveis para essa “cegueira botânica” é que não vemos as plantas como algo ameaçador. Já os animais, podem ser uma ameaça em algumas situações. Por outro lado, também desenvolvemos empatia pelos bichos, o que não necessariamente acontece com as plantas. Esses dois fatores – o medo e o afeto – ajudam o nosso cérebro a prestar mais atenção aos animais. O processamento da informação visual de um bicho também é mais “fácil” do que da planta, já que normalmente são maiores, se movimentam muito etc.

Pata-de-vaca fotografada em São Paulo!

Também entra na conta da cegueira botânica o ensino escolar de biologia. As aulas normalmente enfatizam mais a parte de zoologia e a parte botânica costuma ser bem mais chata, cheia de termos técnicos, uma explicação que passa longe do dia a dia dos estudantes. Com a minha visão de hoje, certamente teria sido mais interessante aprender botânica estudando as plantas da praça em frente a escola, assim como eu faço hoje no meu dia-a-dia, observando as árvores e plantas que cruzam o meu caminho.

O futuro dessa cegueira botânica

Quando olho para a vida urbana que se tem hoje em São Paulo, consigo ser otimista sobre uma possível diminuição dessa cegueira. As hortas urbanas, as feiras de produtos orgânicos (que sempre têm mais diversidade do que as feiras tradicionais), as caminhadas monitoradas que acontecem em parques, os cursos de agroecologia, o interesse pelas PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e os mutirões de plantio em praças e parques são ótimos instrumentos de aproximação das pessoas com as plantas.

Então, se você acha que sobre com a “cegueira botânica”, comece a olhar as plantas que estão próximas a você, identifique-as, compartilhe fotos dela com as pessoas, perceba as nuances e veja como você se sente. Há uma grande chance de, a partir disso, você querer se aprofundar mais e mais nesse universo diverso do verde urbano!

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