O Projeto Florear nasceu para ressignificar o luto de uma mãe, espalhar árvores por São Paulo e dar voz à causa das perdas gestacionais

O que fazer quando seu filho morre ainda no parto? Como reagir, como seguir em frente, como voltar a amar a vida? Em novembro de 2018, estas perguntas martelaram na cabeça de Júlia Tibério, 30. Depois de seis meses de uma gestação tranquila, ela teve um repentino descolamento de placenta e Flora, sua filha, se foi durante o parto. Junto, foram-se os sonhos, desejos, planos e as cores da vida. Dali pra frente, a única questão era: como levantar da cama todos os dias? As terapias, grupos de apoio e a natureza foram os remédios que a ajudaram a transformar esse luto e acabaram gerando o Projeto Florear.

Quando descobriu a gravidez, Júlia, que morava no centro da cidade e trabalhava com figurino para cinema e publicidade, escolheu deixar São Paulo para viver no interior, perto das plantas, no sítio onde nasceu e cresceu.

O plano era fazer produtos naturais e ter uma estufa com plantas medicinais. Mas, depois da perda, tudo isso deixou de fazer sentido e ela se viu em frente ao túmulo da filha, sem saber o que fazer. Resolveu plantar um jardim e, a partir daí, fazer um plantio por mês no próprio sítio em homenagem a Flora. E esse contato com a natureza acabou por ajudá-la a encontrar o tal motivo pra levantar da cama. Começou a nascer o Projeto Florear, que une plantios, conversas, amizade e apoio. “É um projeto para abarcar não apenas as questões de sustentabilidade, mas também uma causa que precisa ser falada, que é a perda gestacional”, diz Júlia.

OS PLANTIOS

O primeiro plantio coletivo do projeto foi feito em maio deste ano. “Entrei em contato com o pessoal do Flores no Cimento e, junto com eles, organizei um plantio de açaís no Dia das Mães, uma data muito dolorosa pra quem perdeu um filho”.

O Açaí foi escolhido por causa da lenda que o acompanha. Ela diz que onde hoje fica Belém, no Pará, havia uma tribo indígena que estava sofrendo com a fome. O cacique, então, decidiu que todas as crianças que nascessem seriam sacrificadas. A filha desse cacique, Iaçã, deu à luz uma menina que precisou ser morta. Em uma noite de lua, Iaçã ouviu um choro de criança e viu sua filha ao pé de uma palmeira. Correu para abraçá-la, mas a menina desapareceu e Iaçã foi encontrada, no dia seguinte, abraçada ao tronco da palmeira com os olhos fitando os frutos escuros no alto da planta. O cacique mandou que apanhassem todos os frutos, que foram batizados de açaí, o nome de sua filha invertido. Com o açaí, o cacique alimentou seu povo e, a partir deste dia, suspendeu a ordem de sacrificar as crianças.

No próximo dia 21, com o apoio do Movimento Boa Praça e do grupo Pedra 90, o Projeto Florear vai fazer um plantio na praça Amadeu Decome, Alto da Lapa. Vai ser um evento com plantio de árvores, piquenique e uma roda de conversa com o grupo Céu Estrelado, de apoio a perdas neonatais e gestacionais. Mas não é um evento apenas para pais que perderam os filhos. Pelo contrário. A ideia é reunir pessoas interessadas na vida, no verde, na cidade, na saúde, no convívio. “Foram as plantas que me ajudaram a voltar a interagir com a sociedade. Então, quero continuar nesse caminho e espalhar essa semente por aí”, diz Júlia.

Vai Lá!
Piquenique e plantio coletivo
Quando: dia 21/07, das 10h às 14h.
Onde: Praça Amadeu Decome, Alto da Lapa
O que levar: Um prato e/ou uma bebida para o piquenique; cangas ou toalhas para sentar no chão; copo ou caneca para evitar o uso de descartáveis.
Programação:
10h – Roda de conversa junto da psicóloga Fabiana Cantazaro e com o Grupo de Apoio Céu Estrelado;
11h – Piquenique coletivo junto com o Movimento Boa Praça;
11h30 – Plantio coletivo e catação de lixo na praça junto com o Movimento Boa Praça.

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