Da agricultura rural para a agricultura urbana

Terezinha Matos é agricultora em São Mateus. Ela deixou a Bahia nos anos 1990 para tentar outra vida em São Paulo, mas acabou se encontrando mesmo é na agricultura feita dentro da cidade.

Aos 56 anos, Terezinha Matos é uma mulher de fibra. Antes de começarmos a entrevista sobre sua vida de agricultora urbana no extremo leste de São Paulo, ela me conta que foi ao médico no dia anterior porque estava com enxaqueca. E que abandonou a consulta porque, sem examiná-la, o médico receitou antibiótico e ela só queria tomar soro para se hidratar. “Só uso remédio em último caso. Fui criada usando ervas e chás”.

Em 1995, quando saiu de Ribeira do Pombal, cidade de 50 mil habitantes na Bahia, e se mudou para São Paulo, Terezinha queria largar a lida na horta da família e construir uma história longe da agricultura e da seca. Mas vejam como é a vida: depois de 15 anos em São Paulo e de uma história que inclui trabalhar como vendedora de cosméticos, camelô e ser dona de um pet shop, ela se encontrou de verdade na agricultura urbana em uma das regiões mais áridas e menos verdes da cidade, no meio de um bairro que tem uma população três vezes maior que a de Ribeira do Pombal.

Hoje, Terezinha planta em um terreno de 6 mil m² em São Mateus, vende seus produtos na Feira de Orgânicos de Itaquera e do Tatuapé, fornece para algumas lojas como Instituto Feira Livre e Instituto Chão e acaba de inaugurar sua própria loja, o Espaço Sabor da Vitória, também em São Mateus. Ela quer que os próprios vizinhos e moradores da região tenham acesso ao alimento limpo que produz.

A jornada incluiu vontade e sorte

Quando chegou em São Paulo com o marido e duas filhas, Terezinha foi logo trabalhar como vendedora de cosméticos. Depois, ainda trabalhou como camelô e, por seis anos, teve um pet shop. Foi um negócio de ocasião, do qual ela não entendia nada, mas aprendeu tudo. Ela alugou um imóvel para uma pessoa abrir um pet shop, mas a inquilina não conseguiu manter o negócio e Terezinha resolveu tocar o empreendimento. Deu certo por seis anos, mas sempre ficava a sensação de que faltava algo. “ Não gosto de trabalhar presa. E o pet shop me deixava muito presa”. Cansada e deprimida, foi fazer um curso de jardinagem oferecido pela prefeitura e começou a se sentir melhor. “Saía de lá cheia de energia”, diz.

Um dia, precisava pagar uma conta no banco, estava com pressa e perguntou a um senhor que já estava na fila se ele poderia pagar a conta para ela. E explicou o motivo: estava atrasada para a última aula do curso de jardinagem. Aquele senhor fazia parte da Associação de Agricultores da Zona Leste e, a partir dali, muita coisa mudou. O encontro ocasional pode ser considerado o embrião da vida que Terezinha conquistou. Foi ali que começou o contato com a Associação que ajuda os agricultores da Zona Leste a conquistarem certificação, capacitação e a escoarem os produtos que cultivam dentro da cidade.

Sem ter terra para plantar, Terezinha passou dois anos frequentando as reuniões da associação e ajudando outros agricultores. Quando surgiu um terreno de 300 m² para ocupar, fez o melhor que pode. Em 2013, conseguiu o terreno onde está hoje: uma área de 6 mil m² onde ficam as torres de transmissão da Enel (antiga Eletropaulo). Diversas hortas de São Paulo ocupam terrenos como este. A empresa faz um contrato de comodato que permite aos agricultores fazer suas hortas naquele espaço, normalmente subutilizado e que facilmente viram pontos viciados, desde que seguindo algumas normas, incluindo a de não ter plantas que ocupem mais de 2 metros de altura e a de que a empresa pode entrar no local sempre que precisar fazer a manutenção dos postes.

Horta Sabor da Vitória
A horta Sabor da Vitória fica em São Mateus, no terreno onde estão torres de transmissão da Enel. Foto: Maisa Infante

É nesse lugar que Terezinha e o marido plantam 50 tipos de folhagens, banana, inhame, açafrão, batata doce, milho, feijão e mais de 10 tipos de PANC (Plantas Alimentícias não Convencionais) como ora pro nobis, peixinho, serralha, beldroega e taioba.

A produção da horta Sabor da Vitória tem a declaração de conformidade orgânica. Dentro do sistema de certificação, essa declaração garante que a horta faz parte de um grupo organizado (no caso, a Associação de Agricultores da Zona Leste), cadastrado no Ministério da Agricultura que faz, ele mesmo, a avaliação dos produtores. Afinal, se um deles não estiver em conformidade, todo o grupo será prejudicado.

O trabalho é em família

José Nildo, o marido da Terezinha, trabalhou por 20 anos como coletor de lixo em São Bernardo do Campo. Foi ele que sustentou a família na época em que ela se dedicou ao curso de jardinagem e enquanto a horta não era rentável. Em 2014, incentivado pela esposa, José pediu demissão para ajudá-la na horta. Hoje, não quer mais sair do meio das plantas e é quem passa o dia lidando com a agricultura urbana.

Terezinha na feira de produtos orgânicos do Tatuapé, onde vende seus produtos às terças-feiras. Foto: Marcelo Martins

Financeiramente, segundo Terezinha, valeu muito a pena a mudança. O casal mantém dois funcionários e acaba de inaugurar uma loja naquele salão que lá atrás abrigou o pet shop: o Espaço Sabor da Vitória. O negócio está bem no início, mas a ideia é dar vazão à própria produção e também à produção de outras hortas da Zona Leste (só da Associação de Agricultores da Zona Leste são 14 hortas), praticando um preço justo e acessível aos moradores do bairro. O local também vai ter atendimento de nutricionista e massagista. O desafio, segundo Terezinha, é mostrar para os moradores do bairro quais são os diferenciais dos alimentos limpos, produzidos sem a utilização de químicos pela agricultura urbana praticada naquela região. “Quero conquistar o bairro e mostrar para as pessoas os benefícios dos produtos que temos aqui”, diz.

A vida é um ciclo

Quando saiu da Bahia e veio para São Paulo, Terezinha não imaginava que acabaria se encontrando na agricultura urbana. Afinal, São Paulo era um lugar para fugir da seca e da vida rural. Ela diz que a diferença entre trabalhar aqui e lá é – além de água – a certeza de que está ajudando outras pessoas a se alimentar melhor. “Quando um cliente volta dizendo que é outra pessoa por causa das nossas verduras, ou fala que está sentindo falta do nosso feijão, ficamos muito felizes. Isso reaquece a gente”. Ela também diz que gosta de estar em um lugar onde encontra pessoas o tempo todo.

“Já pensei em ir para um sítio próximo a São Paulo. Mas aí vou ficar isolada e eu gosto da muvuca. Por isso me encontrei plantando na cidade”.

A agricultora sabe do risco que corre por ter sua horta em um terreno que não é dela. Mas acredita que é difícil a Enel retirar os agricultores porque as torres de transmissão continuarão ali e a ocupação garante um cuidado com o terreno que, sem esses agricultores, é mais difícil manter. “Mantemos o espaço limpo, arrumado e produtivo”. Que assim seja!

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