Parque do Piqueri

Pequeno e aconchegante, o Parque do Piqueri é um oásis no meio do bairro. No passado, foi chácara da família Matarazzo e, por pouco, não virou um condomínio de prédios.

O que eu mais gosto do Parque do Piqueri é seu caráter contemplativo. Sim, ele tem quadras, playground e muita gente caminhando e correndo por suas alamedas, mas, ainda assim, é um parque com cara de mato, com ruas de terra e uma vegetação fechada.

É um parque pequeno, aconchegante, com 97 mil m² que podem ser facilmente percorridos em um passeio. A história desse lugar começou na época em que o Tatuapé, na Zona Leste, era um bairro rural, com a paisagem dominada por chácaras que abasteciam a cidade de São Paulo de frutas e verduras. Essa foi a região escolhida pelo Conde Francesco Matarazzo, na época já um dos maiores empresários do País, para comprar um terreno no qual pudesse instalar sua casa de campo, chamada de Chácara do Tatuapé. O terreno que ele comprou em 1927 ocupava o espaço onde hoje está o parque e um pouco mais: tinha 250 mil m². A entrada da chácara ficava exatamente no mesmo lugar onde é a entrada do parque, mas os limites do terreno iam até a Rua Ururaí, onde hoje fica a entrada da Itautec. O Rio Tietê, que na época ainda seguia um traçado sinuoso, adentrava a propriedade como se pode ver em mapas da época. Por isso havia um ancoradouro de barcos na chácara, do qual restaram algumas ruínas que ainda podem ser vistas no parque.

Ruínas do antigo ancoradouro. Foto: Rodrigo de Paula/Revista do Tatuapé.

Nas décadas de 1930 e 1940, a chácara era uma atração no bairro, já que a família costumava fazer festas e receber personalidades e políticos. Os funcionários da Tinturaria e Estamparia Fernandes, que ficava na Rua Tuiuti, bem em frente à chácara, costumavam observar pelos janelões do piso superior a movimentação por lá. As crianças gostavam de subir no muro para espiar as criações: havia cavalos argentinos, búfalos americanos, pôneis e vacas.

A mansão da família foi demolida, mas registros de satélite mostram que ficava exatamente onde hoje está o Ponto de Leitura. Da entrada, se chegava até ela por uma alameda arborizada, muito provavelmente já cercada pelas Sibipirunas que ainda margeiam o caminho. Segundo a Secretaria do Verde e Meio Ambiente, quando a área foi recebida, a vegetação existente foi mantida, mas novas espécies também foram plantadas.

Das 152 espécies arbóreas que existem no Parque, quatro são consideradas em situação de perigo ou vulnerabilidade, ou seja, em risco de extinção: Pau-Brasil, Cedro, Pinheiro do Paraná e xaxim. Essas plantas são protegidas por legislação específica e o seu manejo só pode ser feito mediante autorização dos órgãos ambientais.

A área hoje ocupada pelo parque ficou bem perto de ter um destino bem diferente. Ainda na década de 1950, tudo indica que a família Matarazzo vendeu parte do terreno. A Philco, por exemplo, se instalou na parte que seria os fundos da chácara (Rua Santa Virginia e Ururaí), em 1952. Mas o imbróglio sobre como aquela área restante seria utilizada se deu mesmo nos anos 1960 e 1970. Ao que tudo indica, ela foi vendida pela família Matarazzo para a Cooperativa Central de Laticínios do Estado de S. Paulo (Leite Paulista) no final da década de 1960. A ideia era fazer uma usina de beneficiamento de leite no local, porém o projeto não foi aprovado e a área foi declarada de utilidade pública em 1971, o que é um primeiro passo antes da desapropriação. Fechado e sem uso porque estava congelado pela administração municipal, o terreno foi alvo de muitas depredações, principalmente queimadas, que acabaram por destruir uma parte da vegetação original.

Em 1974, outra polêmica começou. O então prefeito Miguel Colassuono descongelou áreas verdes da cidade, inclusive a Chácara do Tatuapé, e começou-se uma especulação imobiliária. Reportagens da época falam sobre o projeto de construção de um conjunto comercial e residencial no local. Seria um edifício de 25 andares com 8 apartamentos por andar. Havia uma restrição pela qual a construção não deveria ocupar mais de 25% da área e não se poderia derrubar mais de 10% da vegetação. Moradores do local e políticos ligados ao bairro não aceitaram essa ideia e questionaram a prefeitura. Em 1975, o prefeito eleito Olavo Setúbal manteve a área congelada e, em 1976, o local foi desapropriado. O parque foi inaugurado em abril de 1978, com a bandeira de ser uma das poucas áreas verdes na Zona Leste de São Paulo e um local fundamental para o lazer de um bairro operário. Na época, o Tatuapé possuía grandes fábricas (mais de 200 indústrias passaram pelo bairro) e tinha um dos mais baixos índices de áreas verdes da cidade. Hoje, eu considero o Piqueri um refúgio, um lugar que, apesar de estar do lado da marginal Tietê, ainda conserva pontos de silêncio, uma temperatura agradável, e onde se pode ficar um tempo observando a natureza.

CURIOSIDADES

A visita de Chateaubriand

Quando já estava com mais de 80 anos, em 1934, o Conde Francesco Matarazzo recebeu na Chácara do Tatuapé o jornalista Assis Chateaubriand, que escreveu sobre a visita em uma edição da Revista O Cruzeiro de 1934. “O velho fez questão de mostrar toda a bicharada mais cara à sua sensibilidade. Carpas que ele mesmo alimentou; cabras e cabritinhos recém-nascidos; perus da Toscana, três dos quais com problemas de saúde, o que levou o dono a fazer recomendações ao veterinário; búfalos mansos, que ele tomava pelos cornos, como companheiros de sua velhice ativa; burricos da Sardenha; macacos; lontras, veados”. Chateau falou, também, sobre a vista à crèmerie da chácara. “Elle se occupa da fabricação de queijos com leite de bufalo (sic), o qual é riquíssimo em princípios nutritivos. Fez-me provar um creme antehontem à noite, ao jantar em sua casa, de leite de bufalo (sic), este creme, posso dizer-lhes é de excelente sabor”.

Tombamento

Em 2008 foi aberto um processo de tombamento do ambiente urbano, constituído pelo parque e áreas adjacentes. Tal processo encontra-se em tramitação na Secretaria Municipal de Cultura/CONPRESP

Enchente

Em 27 de janeiro de 1987, uma enchente alagou as marginais e castigou as zonas Norte e Leste da cidade. E as árvores do Parque do Piqueri foram “abrigo” para algumas pessoas, segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo. “O Parque do Piqueri foi outro local seguro procurado por grande parte dos passageiros de um dos ônibus da empresa Itapemirim. Eles mergulharam, às 11h30, nas águas que cobriam a pista esquerda da marginal e nadaram até o muro do parque. Agarrados nos troncos das árvores, conseguiram também liberar uma das mãos para pedir que os helicópteros da polícia ou empresas particulares os salvassem.

Portão

Portão do Parque do Piqueri

O portão principal do parque, onde se vê gravado o ano de 1901 – foi direto do Jardim da Luz para o Tatuapé. Ele ficava na esquina das ruas Prates com Mauá e José Paulino e foi retirado em 1930. Mais de 40 anos depois da remoção, foi reinstalado no parque do Piqueri.

Casa do Administrador

A administração do parque funciona na antiga casa do caseiro, que foi tombada pelo Patrimônio Histórico. Foto: Rodrigo de Paula/Revista do Tatuapé

A casa onde funciona a administração do parque é a única construção da época da família Matarazzo que sobrou. O imóvel era a residência do administrador da chácara, o italiano Saulo Carpinelli, e foi tombado pelo Patrimônio Histórico.

SERVIÇO
Parque do Piqueri
Rua Tuiuti, 515. Tel.: 2097-2213

*Matéria publicada na Revista do Tatuapé em Setembro de 2016

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