Jogar fora. Essa expressão tão usada quando vamos descartar algo poderia ser, ela mesma, descartada. Simplesmente porque o “fora” não existe. Quando algo é descartado, vai para algum lugar, geralmente bem longe de quem o descartou. 

O resultado desse “jogar fora” são toneladas de resíduos que acabam indo para aterros sanitários, um lugar que tem sua utilidade, mas também seus problemas, como a inutilização de áreas, o risco de contaminação de água e a poluição gerada pela emissão de gases. Além disso, a maior parte dos resíduos orgânicos poderia ser transformada em adubo por meio da compostagem. 

E é justamente isso que faz a Planta Feliz Adubo, um negócio de impacto social localizado no Polo de Ecoturismo de São Paulo, na Zona Sul da cidade. A empresa recolhe resíduos pela cidade e transforma esse material em adubo que é vendido e, também, usado na agrofloresta plantada dentro da propriedade. 

Por trás desse negócio estão  Adriano Sgarbi e Marina Sierra Camargo, sócios nos negócios e parceiros na vida. 

“Estamos tentando fazer uma pequena mudança na cidade de São Paulo”, diz Marina. 

O começo

A Planta Feliz começou a operar em 2020. Mas nenhum negócio começa de sopetão. Marina viu a sua consciência ambiental despertar em 1992, quando a professora da quarta série pediu aos alunos para levarem recortes sobre a Eco 92. Depois disso, começou a acompanhar e ajudar Greenpeace e SOS Mata Atlântica. Em 2009, fez uma viagem para a Amazônia e voltou com vontade de ajudar a melhorar o mundo.

Começou, então, a compostar o lixo de casa, inclusive recolhendo resíduos de amigos. Até que Adriano virou namorado, depois marido e, juntos tiveram uma filha e, em 2018, se mudaram para o sítio que foi do bisavô de Adriano. 

A ideia era realmente ter uma qualidade de vida melhor e construir um negócio que impactasse a cidade e as pessoas. 

Como funciona

O trabalho da Planta Feliz Adubo é coletar resíduos na casa do cliente e compostá-los, ou seja, transformar lixo em adubo. Hoje, são 110 clientes no portfólio, sendo que 60% são residenciais e 40% pequenas e médias empresas como cafeterias e escolas. 

Para os clientes residenciais, a Planta Feliz entrega um saco compostável onde deve ser colocado o resíduo. A coleta pode ser quinzenal ou semanal e é feita por portadores terceirizados em toda a cidade de São Paulo e ABC. Os preços variam de R$ 30 a R$ 125, sendo que R$ 30 é para clientes que levam os resíduos até um posto de coleta parceiro em Interlagos, e R$ 125 para clientes da Zona Norte, o bairro mais distante da central de compostagem. 

“Nossos valores são determinados por região. Quanto mais distante, mais caro.  A grande maioria do nosso serviço acontece em Pinheiros, Vila Madalena, Vila Mariana, Vila Clementino e custa R$ 85 por mês com coleta semanal ou R$ 60 com coleta quinzenal”, explica Marina. 

A opção por oferecer sacos compostáveis feitos de mandioca e não baldinhos, como é mais comum, foi feita porque esses sacos vão junto para a leira de compostagem e, em 40 dias, não existem mais. Além disso, as pessoas são estimuladas a reaproveitar alguma embalagem plástica que tenham em casa para guardar o resíduo até o dia da coleta. 

“Precisamos olhar para os plásticos que já existem e reutilizar. Por isso optamos pelos sacos compostáveis. Assim, acabamos fazendo um trabalho de educação ambiental também”. 

Marina Sierra Camargo

Para os clientes comerciais, a startup envia contentores de 120 litros que ficam no local e podem armazenar 60 quilos de resíduos. A coleta também é feita periodicamente por portadores. 

Ampliação

Hoje, a Planta Feliz consegue compostar cerca de 500 quilos de resíduos por dia. Mas a meta é aumentar esse número. Para isso, eles esperam – há 8 meses – uma licença ambiental da prefeitura que vai permitir à empresa trabalhar com 10 toneladas por dia, o que vai abrir espaço para atender os grandes geradores. Segundo Marina, já existem 14 empresas interessadas no serviço e à espera dessa licença.

“Se formos pensar na quantidade de resíduos que a cidade de São Paulo gera como um todo, 500 quilos é muito pouco. A prefeitura passa um dado de aproximadamente 18 mil toneladas de resíduos indo para os aterros por dia. Já temos muitos grandes geradores que pagam para o resíduo ir para o aterro e gostariam de pagar para que seja compostado”. 

Marina Sierra Camargo

Por lei, estabelecimentos comerciais de São Paulo que geram mais de 200 litros de lixo por dia devem contratar uma empresa responsável para fazer a coleta, transporte, o tratamento e a destinação final dos resíduos gerados. E é esse serviço que a Planta Feliz quer ofertar. Porém, em vez de ir para o aterro, o resíduo vai virar adubo. 

A compostagem

A compostagem da Planta Feliz é feita pelo método de aeração, no qual os resíduos são colocados sobre uma cama de palha triturada e cobertos também com palha. Diariamente é feita a aferição de temperatura das leiras. Durante um período, ela fica em uma temperatura bem alta para sanitizar o composto, ou seja, eliminar os patógenos.  

“Numa composteira doméstica, essa sanitização é feita pelo trato digestivo da minhoca. Numa leira de compostagem, quem faz isso é a alta temperatura”, explica Marina.

Marina e Adriano é que fazem o manejo das leiras de compostagem. Foto: André Bueno.

O passo seguinte é a maturação do composto, que já acontece em temperatura mais baixa. Ao todo, o processo dura entre 100 e 120 dias.  Depois disso, é recolhido o húmus, adubo sólido, e o percolado, adubo líquido. 

A Planta Feliz comercializa esses produtos e também os utiliza na sua agrofloresta e horta. Clientes do serviço de coleta tem 25% de desconto na compra dos adubos. 

Quase tudo pode ser compostado

Ao contrário das composteiras domésticas, de minhoca, que não podem receber restos de comida cozida ou muitos cítricos, esse modelo de compostagem aceita tudo que é orgânico, com exceção de lixo de banheiro. 

Isso traz um ganho para a cidade porque, caso seja feito em grande escala, pode reduzir drasticamente o volume de resíduo que vai para os aterros. 

“De forma geral, o resíduo reciclável seco corresponde a 35% do que é gerado em uma casa. 55% é resíduo orgânico compostável e 10% é rejeito, que inclui papel de banheiro, fio dental, absorvente, fralda e até chiclete”. 

Marina Sierra Camargo

A dificuldade de melhorar a coleta e o tratamento dos resíduos urbanos é, além da falta de políticas públicas, o engajamento das pessoas, que muitas vezes nem separam o lixo reciclável do orgânico. 

Marina diz já ter ouvido algumas vezes que é absurdo eles cobrarem para fazer esse trabalho já que estão atuando em prol do meio-ambiente.

“É difícil mudar algumas coisas que estão enraizadas. A pessoa tem que estar engajada para entender que o resíduo não precisa ir mais pro aterro. E eu acho que não tem que ter só a Planta Feliz atuando na cidade. Tem que ter diversos pátios descentralizados pra gente interceptar os resíduos orgânicos e eles não irem mais pro aterro sanitário”.

Para conhecer

Se você quiser conhecer de perto a Planta Feliz Adubo, é possível agendar visitas monitoradas. Além disso, existe uma casa no local para ser alugada pelo Airbnb.

Mais informações no site, e-mail ou WhatsApp

  • Site: https://www.plantafelizadubo.com.br/index.html
  • Email:plantafelizadubo@gmail.com
  • WhatsApp: (11) 96326-8425

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