Reflexões para quem quer fazer um horta urbana

A jornalista e ativista Cláudia Visoni sugere algumas reflexões que valem um tempo de atenção daquelas pessoas que estão pensando em começar uma bela horta urbana no meio do caos da cidade de São Paulo.

Uma horta urbana é mais do que um lugar onde se colhe verduras, legumes, frutas e temperos. É um espaço de cidadania. Seja pra dar início a uma horta ou para mantê-la, é preciso aprender a ouvir, dialogar, assumir responsabilidades e trabalhar.

A jornalista e ativista Cláudia Visoni é uma das fundadoras da horta das Corujas, na Vila Madalena, e acredita no poder das hortas urbanas de transformar o espaço e as pessoas. “Essas hortas espontâneas representam o povo retomando a soberania sobre o território”, diz. “Uma horta oferece mais do que salsinha, cebolinha e PANC. É uma experiência republicana, política e cidadã. Estamos acostumados a querer que o estado resolva tudo, mas ele não resolve. Esse tipo de ocupação oferece a oportunidade de negociar, dialogar, desenvolver a resiliência”.

Qualquer um pode criar uma horta? Sim. Mas vale a pena refletir antes de tomar a iniciativa de criar um novo coletivo, porque hortas urbanas são incríveis, mas também são cheias de responsabilidade. Confira algumas dicas da Cláudia Visoni e faça a sua reflexão.

Frequente mutirões de hortas que já existem.
Ter mais hortas na cidade é importante. Porém, já existem dezenas (talvez, centenas) e muitas delas precisam de ajuda. Então, se você quer ter uma horta perto da sua casa, mas não tem experiência, um bom jeito de se familiarizar com esse mundo é ser voluntário em outras hortas. Somente vivendo a dinâmica de uma horta é possível ter a real noção de como é esse trabalho e de todas as suas implicações. Um jeito de encontrar hortas por aí para se voluntariar é frequentar o grupo Hortelões Urbanos, no Facebook.

Converse com quem usa o espaço
Decidiu fazer uma horta comunitária e já sabe onde? Antes de qualquer coisa, é recomendado conversar com as pessoas que moram no local e também com quem já frequenta aquele espaço para entender como ele é usado. “Tem que existir um contrato social dentro daquele micro território”, diz Cláudia. Ela cita como exemplo a Horta das Corujas, que tem um formato chanfrado porque foi preservado um ponto que as pessoas já usavam para fazer skibunda. “Conversar com quem usa o local é primordial”, diz.

É neste momento que se pratica um dos principais exercícios de cidadania: o diálogo. Pode ser que nem todos se convençam das vantagens de se ter uma horta, então é preciso pesar bem os prós e contras e mostrar os benefícios que esse espaço pode gerar para o bairro. Um bom exemplo é a horta da City Lapa, que exigiu bastante diálogo, mesmo depois de já construída e resiste bravamente. Nos 70 m² que eram tomados pelo mato e usados como área de descarte, existem hoje dezenas de espécies de plantas comestíveis. Como diz a nutricionista Neide Rigo, uma das criadoras dessa horta, ela funciona como um showroom de plantas.

Converse com a prefeitura regional
Não há um instrumento legal que formalize uma horta urbana. Mas existe uma grande possibilidade de conseguir um apoio da prefeitura regional para ocupar o espaço público. Na Vila Madalena, o subprefeito da época apoiou a criação da Horta das Corujas. Na Horta das Flores, na Mooca, também houve esse apoio, embora ela venha sofrendo alguns baques com o fechamento dos portões da praça onde fica.

Se a prefeitura não apoiar e você estiver seguro de que o projeto vai ser benéfico para as pessoas e para a cidade, pode seguir em frente (sabendo dos riscos e embates que talvez tenha que enfrentar). Esse movimento de ocupação do espaço público pela população é um jeito bem eficiente de transformar um lugar e mostrar o seu potencial. “Uma horta urbana tem tudo para dar certo. Se o lugar ficar mais legal e mais seguro, lá na frente será mais difícil alguém mexer no que está funcionando. A horta vai ter apoiadores e, certamente, vai ter mais gente querendo aquele espaço do que não querendo”, diz Cláudia. Mas não se iluda: pra isso acontecer, é preciso trabalho. E trabalho pesado.

Pense na responsabilidade
“É importante ter consciência de que a conquista de uma horta vem com uma responsabilidade enorme”, avisa Cláudia. A partir do momento que um coletivo (ou uma pessoa) assume aquele espaço, precisa estar ciente de que horta não tira férias, ou seja, sempre precisa ter alguém pra trabalhar na manutenção. Dezembro e janeiro, por exemplo, quando muitas pessoas saem de férias, são a época em que o mato cresce mais e mais rápido por causa da combinação sol e chuva. É preciso, também, ficar atento ao que é plantado, às colheitas, às necessidades de poda, à organização de mutirões, aos recursos necessários pra cuidar da horta etc. Além disso, sempre que houver uma demanda, uma reclamação, uma necessidade, os responsáveis serão acionados.

Aproveite os benefícios
Uma horta consolidada e bem cuidada tem todas as chances de ser bem aceita por quem vive ou circula pela região onde ela está. Quando sentem na pele os benefícios (como uma calçada mais segura), quando veem o interesse das crianças, ou quando conseguem consumir algo que foi produzido ali, as pessoas passam a entender melhor o espaço e o projeto da horta e tendem até mesmo a querer participar. Ver esse movimento e a transformação do espaço é um bom estímulo para as pessoas que começaram o projeto. Conhecer outros moradores das redondezas e fazer novas amizades também é estimulante. O importante é estar sempre com os olhos abertos para o novo e para o outro.

 

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