Mata Atlântica – O paisagismo urbano e o resgate da vegetação nativa

Mata Atlântica: O botânico Ricardo Cardim fala sobre o papel da cidade no resgate da vegetação nativa e porque essa combinação de vida urbana e verde tem a ver com a cidade sustentável e a preservação do meio-ambiente.

O botânico Ricardo Cardim, 40, um paulistano que cresceu em apartamento no bairro de Moema, aposta que a cidade do futuro só será sustentável e saudável se houver uma harmonia entre a vida moderna e biodiversidade nativa. Sou contra aquele pensamento ambientalista de que a gente tem que viver na miséria, sem abundância e com dor. Precisamos continuar com os confortos que conquistamos, mas mantendo a harmonia com a natureza. E isso é totalmente possível”. Por isso, ele defende que os projetos de paisagismo da cidade sejam feitos usando plantas nativas, no caso de São Paulo, da Mata Atlântica.

“O mercado de paisagismo brasileiro ainda está no século 19 porque a gente copia todas as tendências estrangeiras. No País mais rico em natureza do mundo, que é o Brasil, 90% da vegetação utilizada é de fora. Em um país que tem 50 mil espécies de plantas, a gente usa as mesmas 20 e isso vai causando um holocausto de diversidade”.

O resultado é uma cidade desequilibrada, em que pássaros como os tucanos, que poderiam conviver com as pessoas, quase não são vistos porque não encontram os frutos que gostam de comer. Além disso, áreas remanescentes de Mata Atlântica convivem com o risco de serem totalmente extintas por causa da força das plantas estrangeiras. “Sem os inimigos naturais, que ficam no país de origem, o que a planta iria gastar para se defender ela investe em crescimento e pode se tornar um problema muito sério. O parque Trianon, por exemplo, está morrendo por causa de uma palmeira australiana seafórtia. Se não tirar a palmeira, o parque vai morrer”.

O poder da convivência

Para além de serviços ambientais como melhoria da qualidade do ar, regulação de temperatura, suporte da avifauna etc, Ricardo acredita que priorizar um paisagismo urbano com plantas nativas (seja em São Paulo ou em qualquer outra cidade, inclusive aquelas inseridas em outros biomas) é o que vai fazer com que as pessoas conheçam essa vegetação, tenham contato com aquelas plantas que são nossas e que simplesmente desconhecemos. E isso, ele acredita, pode impactar na preservação de áreas verdes em todo o País. “É convivendo com a estética, o cheiro, os pássaros, as frutas e as formas das plantas nativas que as pessoas vão entender o valor disso e, aí, preservar o restante. O verde tem que estar na cidade, porque a cidade é que decide o que será do verde de fora, das florestas e da Amazônia, por exemplo. Se os grandes proprietários de terra que moram nas cidades só têm como modelo de beleza as plantas estrangeiras, não vão pensar duas vezes em derrubar a floresta. Agora, se os filhos deles crescerem com Mata Atlântica nas ruas, nos empreendimentos comerciais e residenciais, vão passar a valorizar muito mais aquilo”.

Perspectiva ilustrada do edifício Galeria 90, na Vila Olímpia, que recebeu paisagismo com Mata Atlântica.
Telhado verde do edifício corporativo Triple A, que recebeu árvores nativas como embaúbas, araçás e cabeludinhas.

Uma floresta na escala urbana

Além dos empreendimentos residenciais, comerciais e corporativos, Ricardo acredita que a vegetação nativa precisa estar nas praças, nos parques, nos canteiros e nas novas áreas verdes da cidade. Por isso que ele criou o projeto das Florestas de Bolso (já falamos sobre elas aqui no Verde SP. É só clicar no link), uma técnica para restaurar a biodiversidade dentro da escala urbana. Colocar plantas nativas de diferentes tamanhos e características no mesmo espaço, para que haja uma disputa saudável entre elas, o que estimula o desenvolvimento, é a premissa básica dessa técnica. Assim, São Paulo ganha bolsões verdes, respiráveis, agradáveis e acessíveis, onde a população pode ver de perto o Araçá, a Embaúba, o Ingá, o Pinheiro, o Palmito Jussara e muitas outras plantas que são nossas, mas que a gente nem conhece.

4 comentários em “Mata Atlântica – O paisagismo urbano e o resgate da vegetação nativa

  1. Concordo Ricardo, totalmente possível;
    Sou ambientalista, fiz curso técnico em gestão ambiental e paisagismo.
    Moro atualmente em um espaço pequeno mas tenho mais de duzentas espécie de mudas, a maioria nativas, as quais transformo em vasos ornamentais lindissimos.
    Tenho esse diferencial para os meus clientes que ficam deslumbrados.

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