O prédio que atrai maritacas

Todos os dias às 5h30 e às 17h, um grupo de maritacas se aglomera na fachada de um edifício no Tatuapé, bairro da Zona Leste de São Paulo.

A imagem é impressionante e, o barulho, ensurdecedor. Contei cerca de 200 aves em uma tarde.

As maritacas escalam a parede do prédio em busca de alimento. Vídeo: Karol Endrigue

Segundo moradores do prédio, esse fenômeno acontece há 25 anos. No bairro, o edifício é até conhecido como “prédio das maritacas” e algumas pessoas vão até o local só para assistir ao “fenômeno”.

Trabalhando com aves urbanas há 15 anos, Karlla Barbosa, bióloga e coordenadora de projetos na SAVE Brasil, também se impressionou com as imagens. Diz que nunca havia visto isso na cidade.

O biólogo e subtenente da Polícia Militar Fábio Ferrão Videira, que é Coordenador Técnico da Comissão do Verde e Meio Ambiente do Centro Médico da Polícia Militar e observador de aves, também se surpreendeu com o fenômeno.

A maritaca é um Periquitão-Maracanã

Conhecida popularmente como maritaca, essa ave é o Periquitão Maracanã (Psittacara leucophthalmus) e na fachada deste prédio ela encontra barro, que faz parte da sua dieta natural.

Esse é o Periquitão-Maracanã, conhecido como maritaca em São Paulo. Foto: WikiAves

Estudos apontam que o consumo de terra (geofagia) auxilia na redução da toxidez de alguns dos compostos das plantas que a ave ingere, além de fornecer nutrientes como sais minerais. Fora da cidade, elas costumam encontrar esse alimento em barrancos.

Além de fornecer o barro necessário para a alimentação, já que é feita de tijolinhos, a fachada do prédio é um local seguro para os animais.

“É mais arriscado estar no chão do que estar em uma parede que ninguém toca. Então, a escolha do prédio pode ser uma questão de proteção, tanto da ação humana como dos predadores naturais”, diz Karlla.

Karlla também acredita que as aves usam a fachada para raspar o bico, comportamento comum nas espécies de bico torto. “Como o bico cresce bastante, elas costumam raspar em alguma pedra para fazer uma manutenção natural”, diz.

Silvana Cardoso Espinosa, moradora do prédio há 24 anos, conta que até já se acostumou com a presença dos animais, mas dorme com protetores auriculares porque acorda com o barulho às 5h30. Já o marido dela não se incomoda com a festa das maritacas, que dura cerca de uma hora.

Maritacas usam a fachada do prédio como refeitório. Elas comem o barro do tijolo.

À tarde, elas se reúnem em uma árvore em uma rua próxima e às 17h começam a se juntar nas palmeiras e na fachada do prédio.

Outra curiosidade é que a fachada não está estragada. O zelador Dailton Rocha conta que a cada três anos é feita manutenção com aplicação de resina.

A vida urbana das maritacas

Nativa do sudeste, o Periquitão-Maracanã é considerado um “adapter”, aves que se adaptaram bem à vida urbana.

Karlla explica que são três os principais fatores que fazem com que as aves se mantenham em um lugar: alimentação, abrigo e proteção contra predadores.

No caso do Periquitão Maracanã, existe uma boa combinação destes fatores.

“Na cidade, essa espécie não encontra muitos predadores naturais e como não há caça no ambiente urbano, elas se sentem seguras. Como dormitório elas usam as árvores, além de conseguir fazer ninho nos telhados. E o alimento existe de forma até abundante, porque tem muito coquinho espalhado pela cidade”.

Karlla explica que, na natureza, essas aves despertam cedo, se alimentam e depois se dispersam em pequenos grupos. No fim da tarde reúnem-se novamente para dormir em locais conhecidos como “dormitórios”, onde ficam todas juntas. “Em São Paulo já cheguei a ver 400 bichos em algumas árvores perto da USP enquanto acompanhava o trabalho da pesquisadora Raquel Colombo com a espécie maracanã-pequena (Diopsittaca nobilis)”, conta. Embora seja outra ave, tem comportamento semelhante ao Periquitão-Maracanã.

Segundo Dailton, as palmeiras em frente ao edifício servem justamente como dormitório. Quando deixam a fachada, elas ficam ali até o amanhecer.

O Periquitão-Maracanã nas Palmeiras em frente ao condomínio. É nesse lugar que eles costumam dormir. Imagem: Maisa Infante

Estes bandos enormes, com centenas de aves, são comuns fora da época reprodutiva. Quando chega o período de reprodução, os grupos tornam-se bem menores, explica Karlla.

Observar esse fenômeno dentro da cidade, em uma bairro super movimentado é uma experiência interessante. Mostra o quanto a natureza é resiliente. Assim como o sabiá-laranjeira, que adaptou seu canto para a madrugada por causa do barulho, essas maritacas encontraram um local seguro para seguir suas vidas. O que será que podemos aprender com isso?

5 comentários em “O prédio que atrai maritacas

  1. Trata-se de um fenômeno bastante interessante, o qual necessita ser estudado mais detalhadamente, a fim de verificar o interesse que os periquitãos possuem nos tijolos expostos da fachada do prédio.

    Soube informalmente, que é utilizado em períodos de 3 anos, resina nesses tijolos. Será que essa resina possui cheiro que atraí esses pscitacídeos?

    Pois nos vídeos não apresentam danificações nos tijolos, fato o qual não estão retirando material deles.

    Intrigante!

    Abraços,

    Fábio Ferrão Videira
    Biólogo – Presidente do CEO
    Centro de Estudos Ornitológicos

  2. As maritacas se aglomeram aqui no bairro da Mooca também.
    Os prédios aqui servem de dormitórios. Elas são bem barulhentas, mas já acostumei. Até sinto falta quando estão mais quietas rsrs

  3. Parece claro que não estão comendo os tijolos, ou eles estariam todos roídos. Nós sabemos como essas queridas aves podem ser destruidoras! Decerto usam o prédio apenas para evento social mesmo, já que conseguem se fixar nos tijolinhos, como mostra a imagem.

Deixe uma resposta