#Trashtag: o que aprendi em 30 minutos pegando lixo na rua

Afinal, qual a nossa responsabilidade sobre o lixo que geramos? Fui despertada para esta e outras reflexões a partir do desafio de recolher lixo na rua 

Foram apenas 30 minutos. Luva nas mãos, três sacos de 100 litros para encher e uma turma de mais 5 amigos para compartilhar o desafio. Foi assim que eu participei do #trashtag Challenge. O desafio está rolando no mundo e propõe às pessoas que limpem algum lugar e postem nas redes sociais o antes e o depois usando a hasthag #trashtag.
Em uma terça-feira, às 6h45, a treinadora Juliana Romantini chegou para dar aula levando esse desafio para todos os seus alunos (entre eles, euzinha aqui), que saíram correndo pelos arredores do parque para pegar lixo. Como somos uma turma do tipo “missão dada é missão cumprida”, fomos. E, ao todo, cerca de 15 alunos divididos em dois grupos encheram 8 sacos de lixo grandes. Se tivesse mais, encheríamos mais. Pegamos lixo das calçadas na região do Ceret, um parque que fica no Tatuapé, Zona Leste de São Paulo.
Essa atividade inusitada para aquela terça-feira de manhã trouxe algumas reflexões sobre a nossa relação com o lixo e com a cidade:

1. Não existe fora

Quando dizemos que vamos jogar o lixo fora parece que existe um lugar que não nos pertence, onde podemos colocar tudo aquilo que não queremos, não precisamos e, pronto, essa coisa desaparece. Ouvi há algum tempo, durante uma entrevista com o Instituto Akatu, que o fora não existe. E durante o desafio isso ficou ainda mais claro. Ao ver itens como calota, cueca, garrafa, canudos, coco verde, papel de bala, bituca de cigarro e ‘cocô de cachorro ensacado’ jogados nas calçadas, fiquei pensando sobre o que a pessoa que jogou aquele lixo ali estava pensando. Talvez, algo como “nunca mais vou voltar aqui”, “alguém vai limpar” ou, pior, “se não tiver lixo, não haverá emprego para os lixeiros”. O fato é que, como disse o pessoal do Akatu, fora não existe. Quando descartamos qualquer coisa, ela vai para algum lugar. Vai pro aterro, pro bueiro, pra casa do vizinho, pro rio, pra floresta ou pra barriga da baleia. Ela simplesmente não desaparece. Então, o meu fora significa dentro de outro lugar. Ou seja, jogar fora é tirar o problema da nossa frente e transferi-lo para outra pessoa.

2. Lixo é responsabilidade nossa

Durante o exercício de pegar lixo na rua, alguém que estava passando disse que a gente não precisava fazer aquilo porque a responsabilidade era da prefeitura. Putz, muito errado!. A prefeitura tem a responsabilidade de fazer a coleta do lixo ensacado e deixado da forma correta, no lugar certo e no dia certo, não de pegar papel de bala e bituca de cigarro que as pessoas jogam na rua. Essa responsabilidade é de quem consumiu a bala ou o cigarro. Pagar imposto e ter um governo não nos exime da responsabilidade de cuidar do lixo que a gente gera. Isso significa que, sejamos ricos ou pobres, temos que, diariamente, olhar para tudo que jogamos fora (em casa, no trabalho ou na rua) e pensar duas vezes pra ver se aquilo é reciclável, compostável, reutilizável ou precisa mesmo ir pro lixo. Depois, temos a OBRIGAÇÃO de dar o destino correto. Se for reciclável, temos que levar no posto de coleta de recicláveis. Se for compostável, temos que fazer a compostagem ou doar pra quem faz. Somente aquele lixo que realmente não há o que fazer é que devemos descartar pra coleta comum. Isso exige uma mudança de comportamento grande e uma postura adulta, de assumir a responsabilidade e parar de terceirizar tudo para o governo.

3. Grama ou árvore não são lixões

Fiquei chocada com a quantidade de saco plástico com cocô de cachorro que as pessoas deixam nos canteiros, encostados no tronco das árvores. O sujeito pega o cocô do cachorro, coloca no saquinho e deixa o saquinho no canteiro. Aqui, vejo duas lições: 1. se você não quer cuidar do cocô do seu cachorro, não tenha cachorro. 2. canteiros e gramados não são lixões. Se a gente não respeitar as áreas verdes, teremos problemas sempre. Porque o ser humano não vive sem a natureza, já ela, vive bem pra caramba sem a gente.

4. O lixo está relacionado com o nosso consumo


Se as pessoas não tivessem tomado água coco no final de semana que antecedeu a nossa coleta de lixo pela rua, certamente não haveria tanto coco jogado na calçada. Isso significa que as pessoas não devem mais tomar água de coco pra não gerar lixo? Não. Mas significa que, ao beber a água do coco, precisam pensar o que vai ser feito daquele coco depois. E esse é o pensamento que temos que ter pra tudo, seja roupa, sapato, comida, embalagem, carro etc. Quando a gente não usa mais, aquilo precisa ir pra algum lugar. Então, a nossa responsabilidade começa no consumo consciente, que vai desde escolher um produto mais sustentável até recusar uma sacola plástica, ou simplesmente consumir menos. Menos consumo significa menos lixo.

5. A rua também é nossa

A sensação de pegar todo aquele lixo na rua é de que, para as pessoas, a rua não faz parte da vida e da responsabilidade delas. Mas faz. Ninguém vive só trancado em casa, né? Se a gente quer viver em uma cidade melhor, mais bonita e mais limpa, temos que olhar para o que está fora da nossa casa do mesmo jeito que olhamos para o que está dentro. Gostamos de elogiar quando os orientais limpam os estádios depois que deixam as arquibancadas, mas devíamos fazer o mesmo. É bem simples. E é transformador. Porque se uma pessoa não tivesse deixado o coco na grama depois de beber a água, seria um item a menos no nosso saco de lixo daquela terça-feira. E se todas pessoas tivessem feito isso (do papel de bala à cueca)? Só pensem.

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