Verde no nome

São Paulo faz 464 anos e o Verde SP foi pesquisar a história dos nomes de alguns bairros, ruas e lugares que fazem referência a plantas. É nossa homenagem para essa cidade que tanto amamos.

Pinheiros

Pinheiros é um bairro tão falado por sua boemia e vida urbana descolada que a gente nem para pra pensar que tem uma planta no nome. Mas esses Pinheiros que nomeiam o bairro, bem como um rio (rio Pinheiros), uma rua (Rua dos Pinheiros) e um Largo (Largo dos Pinheiros) fazem referência às Araucárias (Araucaria angustifólia), popularmente conhecidas como Pinheiro do Paraná, que eram abundantes por aquelas bandas em outros séculos.

A Araucária já ocupou a região de Pinheiros

Por volta de 1560, o Padre José de Anchieta criou naquela região uma aldeia indígena que levou o nome de Aldeia Nossa Senhora dos Pinheiros. Naquela época, o território de São Paulo era coberto por matas e, naquele pedaço, a mata era chamada de “espinheiro” justamente por causa dos pinheiros que cobriam a região desde o Morro do Caaguassú (onde hoje é a Avenida Paulista) até o Rio Pinheiros. Segundo o autor Levino Ponciano no livro Bairros Paulistanos de A a Z, em 1584, um decreto da câmara previa multa de 500 réis para quem cortasse qualquer árvore do bosque dos Pinheiros da Rua São José (atual Pais Leme). Daí, podemos concluir que essa árvore tinha certa importância para a cidade e seus moradores da época.

Araucária sendo plantada no Largo da Batata no final de 2017

Ao longo do tempo, essa vegetação foi quase totalmente excluída do território de São Paulo. É bom dizer que a Araucária, embora seja conhecida popularmente como Pinheiro do Paraná (onde faz parte dos cartões postais), é uma planta da Mata Atlântica e faz parte da vegetação nativa da cidade de São Paulo.

No final de 2017, o botânico Ricardo Cardim, o arquiteto e urbanista Sérgio Reis e o publicitário Nik Sabey, junto com dezenas de voluntários, plantaram alguns exemplares de Araucárias na região do Largo da Batata, em uma praça construída com dinheiro privado e que levou de volta para o bairro a sua vegetação original.

Cambuci

O nome deste bairro, que fica na região central da cidade, é uma referência à árvore homônima, o Cambuci (Campomanesia phaea), que existia em abundância no local, mas foi quase extinta da região. A exploração comercial da madeira e o desmatamento para favorecer o desenvolvimento da cidade são os principais motivos para a extinção da árvore. A falta de conhecimento das pessoas sobre ela também ajudou a colocar no chão alguns exemplares.

O fruto Cambuci, que dá nome ao bairro

O Cambuci leva essa nome por causa do formato da fruta, que lembra um pote. Em tupi-guarani, Cambuci significa “pote de água”. No passado, na época dos tropeiros que cruzavam a trilha que ligava o centro à Serra do Mar passando pelo bairro do Cambuci (onde hoje está a Rua dos Lavapés), era comum o consumo de cachaça curtida no Cambuci. Até hoje esse é um uso comum para a fruta, cujo potencial vai bem além, já que pode virar geleia, molho, licor, chá, biscoito e, claro, pode ser degustada in natura.

O cambucizeiro do Largo do Cambuci; Foto: A Vila Inglesa

Considerado um símbolo da Flora brasileira, o Cambuci é objeto de um trabalho de preservação do Instituto Auá desde 2009 com o projeto Rota do Cambuci, que tem ajudado e estimulado toda a cadeia de produção ligada ao fruto, incluindo produtores e pequenos empresários que desenvolvem produtos usando a fruta. A cidade de São Paulo faz parte dessa rota de preservação.  Em 2017, durante a abertura do Festival Gastronômico Rota do Cambuci, que aconteceu no largo de mesmo nome, foram vendidas diversas mudas da planta, em um trabalho para ajudar a levar de volta o Cambuci para o bairro do Cambuci.

Cemitério do Araçá

Na Zona Oeste da cidade fica o cemitério do Araçá, com seus 220 mil m² e túmulos de algumas personalidades como Nair Bello, Cacilda Becker e Assis Chateaubriand. Inaugurado em 1897, o nome é uma referência a um arbusto típico do Cerrado (que também fazia parte da paisagem original paulistana), que, no século 19, nomeou o Caminho do Araçá, onde hoje está a movimentada Avenida Dr. Arnaldo. Acredita-se, portanto, que naquela região essa frutinha era abundante.

O pé de Araçá

Nessa época, aquele pedaço era conhecido como Altos do Araçá e, como ficava longe de áreas mais povoadas, foi onde o governo construiu o Lazareto dos Variolosos, para acolher vítimas da varíola e mantê-las distante do restante da cidade. Depois, essa instituição passou a se chamar Hospital de Isolamento e recebia pessoas com outras doenças graves, como a Febre Amarela. O cemitério do Araçá foi construído porque o Cemitério da Consolação, que é o mais antigo da cidade, já estava bem lotado, e também porque a proximidade com o Hospital de Isolamento permitia que os cadáveres fossem levados ao cemitério sem precisar atravessar áreas povoadas. Ao longo do tempo, aquela região acabou se tornando um polo de hospitais, cemitérios e, também, a sede da Faculdade de Medicina da USP.

O cemitério do Araçá e a Avenida Dr. Arnaldo

Quando o cemitério foi inaugurado e recebeu esse nome, o Caminho do Araçá teve seu nome alterado para Avenida Municipal. A nomeação atual, Avenida Dr. Arnaldo, começou a valer em 1931.

O araçá que nomeia o cemitério é um arbusto que deveria ser mais usado na arborização urbana. Além de ser uma planta nativa da região, é uma árvore de pequeno porte, ideal para estar nas calçadas e não prejudicar a fiação aérea da cidade.

Em 2013, foram plantadas 24 mudas de araçá dentro do cemitério, justamente para levar de volta a vegetação nativa para aquela região.

Viaduto do Chá

Milhares de pessoas passam diariamente pelo Viaduto do Chá, no centro de São Paulo. Afinal, ele liga a Praça do Patriarca à Praça Ramos de Azevedo, dois pontos muito movimentados da cidade. Esse viaduto sobre o qual os pedestres caminham hoje foi construído na década de 1930. Mas, antes de dele, com uma localização ligeiramente diferente, foi erguido o primeiro Viaduto do Chá, em 1892, com uma estrutura de ferro. Durante quatro anos, cobrou-se um pedágio de quem passava por ele no valor de 3 vinténs. A ideia era ressarcir os investidores da obra. Em 1896, quando o viaduto passou para as mãos do governo municipal, o pedágio deixou de ser cobrado. A antiga de estrutura ferro foi totalmente demolida para a construção do novo viaduto como o conhecemos hoje.

O viaduto do chá, no Centro de São Paulo. Divulgação

Mas o que o nos interessa aqui é o nome. Afinal, por que Viaduto do Chá? Porque naquela região, no século 19, havia imensas plantações de chá. A primeira a surgir ficava na chácara do Marechal José Arouche de Toledo Rendon e chegou a ter 40 mil pés. As terras ocupavam uma área gigantesca, que ia da atual Rua Araújo até o Largo do Arouche, se expandido por todo o terreno onde está localizada, hoje, a Santa Casa de São Paulo (era neste local que ficava a sede da propriedade). Logo, outros chacareiros da região resolveram cultivar chá. Joaquim José dos Santos Silva (o futuro Barão de Itapetininga) foi um deles. Sua propriedade compreendia toda a baixada do Anhangabaú, bem no trecho onde seria construído o viaduto. Foram essas plantações que nomearam a região como Morro do Chá e, depois, o viaduto. Hoje, como sabemos, não existe mais plantação nenhuma por lá!

Avenida Jacu Pessego/Nova Trabalhadores

Essa grande via que corta a região de Itaquera e São Miguel traz no nome, pêssego, um pedaço da história recente de Itaquera. Assim como quase toda a cidade, o bairro foi sendo loteado a partir de chácaras. Ali, onde havia grandes espaços de terras, famílias cultivavam hortaliças e frutas que eram levadas, de trem, ao Mercado Municipal no centro da cidade.

Vista de uma chácara de pêssegos em Itaquera. Foto: 90 anos Colônia de Itaquera

A partir da década de 1920, imigrantes japoneses começaram a se instalar no bairro, formando o que ficou conhecido como Colônia de Itaquera. Essa história começou com a compra de uma parte da Fazenda do Carmo pelo Coronel Bento Pires de Campos, presidente da Cia. Comercial Agrícola e Pastoril. Segundo as autoras Amália Inês Geraiges e Maria Cecília França no livro Itaquera, “o Coronel planejou um núcleo colonial para suas terras. Com a colaboração de um dos diretores da Cia, iniciou o loteamento das terras. Os planos eram plantar hortaliças, frutas e legumes para o mercado de São Paulo e introduzir o elemento japonês na área”. O primeiro imigrante que se instalou foi um engenheiro agrônomo, que organizou os loteamentos e abriu caminho para novos membros da comunidade japonesa. Primeiro, eles tentaram produzir tomate e morango, mas a cultura não foi pra frente. Quando introduziram os pêssegos, viram o negócio fluir. E essa colônia japonesa, que chegou a ter centenas de famílias, tornou-se a principal produtora de pêssegos da cidade. Parte da produção ia para o mercado municipal e outra parte era vendida na Festa do Pêssego, que começou em 1949 e teve 18 edições. As chácaras produtoras também recebiam visitantes nos fins de semana, em um passeio bucólico pela periferia da cidade.

Trecho da Avenida Jacu Pêssego. Divulgação/Governo de SP

Hoje, a Avenida Jacu Pêssego/Nova Trabalhadores guarda no nome a lembrança dessa cultura que já foi pujante, mas hoje não existe mais. Esse nome foi oficializado em 1996 e é a fusão da antiga Estrada do Pêssego (Marginal do Córrego do Pêssego) e antiga Estrada do Jacu (Marginal do Córrego do Jacu) em uma só via.

Sumaré

Orquídea Sumaré: inspiração para o nome do bairro

O bairro na Zona Oeste da cidade tem o nome de uma orquídea, a Sumaré (Cyrtopodium punctatum), cujo habitat são as matas de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. Essa orquídea era admirada por um dos sócios da empresa Sociedade de Terrenos e Construções Sumaré Ltda., que fez o loteamento do bairro na década de 1920. Segundo o autor Levino Ponciano, aquela região pertencia, por volta do século 18, à Fazenda Pacaembu. “A área era propriedade de um padre, que em testamento a deixou para duas ocupações: a porção menor ficou para o Colégio São Miguel, que a vendeu para a Companhia City, dos ingleses, que no local fizeram surgir o Pacaembu. A outra, maior, ficou com a Sociedade de Terrenos e Construções Sumaré Ltda., que a loteou já com o nome de Sumaré”.

Limão

Um pé de limão é que teria inspirado o nome do bairro do Limão

O bairro do Limão, na Zona Norte da cidade, só tem Limão no nome. Como toda a cidade, aquela região era ocupada por sítios e chácaras. A história que se conta é que os primeiros a chegar ao local encontraram ali um pé de limão-bravo, no limite entre o Bairro do Limão e a vizinha Freguesia do Ó. Por isso, este se tornou o nome daquela região.

 

 

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