Cascas de frutas, verduras, legumes, podas do jardim e folhas secas, definitivamente, não devem ir pro lixo. Esse é um hábito ruim, que manda pro aterro sanitário aquilo que pode voltar pra terra em forma de nutrientes. 

Talvez você esteja se perguntando: mas se eu não jogar no lixo, vou fazer o que com a casca da banana? Compostar é a resposta. 

A compostagem é uma técnica que usa a capacidade da natureza pra transformar resíduos orgânicos em um composto nutritivo muito parecido com a terra e usado como adubo natural. Assim, aquilo que veio da terra, como frutas, legumes, verduras e folhas, volta pra terra pra fortalecer novas plantas. Bonito, né? 

Basicamente, a compostagem acontece quando microorganismos como fungos e bactérias decompõem o material orgânico e o resultado desse trabalho é o adubo. A química faz com que os nutrientes que estavam indisponíveis nos materiais orgânicos se tornem disponíveis para as plantas.

“A compostagem moderna foi disseminada no Ocidente a partir dos estudos do Agrônomo inglês Albert Howard, considerado o pai da agricultura orgânica. No início do século XX, Howard investigou por mais de 25 anos as práticas tradicionais realizadas na Índia para o enriquecimento natural do solo. Ele percebeu que quando os elementos orgânicos se decompõem juntos, formam um subproduto riquíssimo em nutrientes (muito mais do que os fertilizantes químicos vendidos pelas indústrias). Esta união de elementos é que gera o nome “composto”. 

Manual da Compostagem Doméstica com Minhocas, elaborado pela Morada da Floresta em parceria com a Prefeitura de São Paulo. 

As dimensões da compostagem

A compostagem pode ser feita em larga escala, mas também pode ser doméstica, feita em casa, pra dar um destino mais nobre aos nossos resíduos do dia a dia. 

Nesse sentido, o modelo que mais se adequa é a vermicomposteira, que usa as minhocas pra acelerar o processo de decomposição. É um sistema vertical, em que a compostagem acontece dentro de caixas ou baldes empilhados, que trouxe para os seres urbanos uma forma simples de compostar e ter acesso ao húmus da minhoca. Mesmo em apartamentos esse tipo de compostagem é possível.

Marcela Campos composta dentro do apartamento há dois anos. A composteira vertical divide o espaço da lavanderia com a máquina de lavar e 3 caixas de areia para gatos. “Me dava agonia jogar fora sabendo que poderia virar composto”, diz. O esquema é simples: ela separa tudo que pode ir pra composteira em um pote enquanto está cozinhando. Depois, coloca na composteira, cobre com serragem e está feito. 

Ter uma composteira não exige uma grande mudança de hábito, a não ser separar os resíduos e, em vez de jogr no lixo, colocar na composteira. Muitas vezes, o que afasta as pessoas da compostagem é a ideia de lidar com o lixo. Mas quem já composta garante que não há problemas, desde que o manejo seja feito corretamente. 

Esse é o esquema básico de funcionamento de um minhocário. Esse tipo de composteira pode ser comprada pronta, mas também é possível construir em casa, usando embalagens plásticas. Imagem: Fecomercio

Marcela considera o manejo simples e diz que não precisou fazer mudanças na rotina. “A cada 2 ou 3 meses eu abro, tiro os resíduos grandes, peneiro o composto, verifico se está tudo certo e pronto”. 

Caso a composteira exale cheiro ruim ou atraia algum bicho indesejado, como moscas varejeiras, é preciso verificar o que foi feito de errado e corrigir. Pode ser excesso de umidade, o tipo de resíduo colocado, falta de matéria seca, minhoca morta no líquido que resulta do processo e é um biofertilizante poderoso.

Marcela usa o composto gerado na lavanderia nas plantas da sua casa e também doa para vizinhos e amigos. Já o biofertilizante ela doa para os agricultores da Zona Leste

Compostagem na praça: Nossa Senhora da Composteira

A cidade também pode ser palco de composteiras comunitárias, espaços em que a compostagem ganha um pouco de escala mas, principalmente, atua como agente de educação ambiental. 

Um exemplo é a praça Nossa Senhora do Carmo, na Pompéia, onde moradores e voluntários construíram duas composteiras no projeto chamado Nossa Senhora da Composteira. Henrique Schaffer, morador do local, é quem coordena esse projeto há dois anos. 

As duas composteiras foram construídas usando o método “leiras estáticas de aeração passiva”, desenvolvido na Universidade de Santa Catarina, com a orientação da bióloga e educadora ambiental Marina Donini e do educador ambiental Felipe Manfrini. Esse método não exige que o material seja sempre revirado, o que facilita o manejo. 

Projeto Nossa Senhor da Composteira, na praça Nossa Senhora do Carmo, na Pompéia.

Ao contrário da vermicomposteira, essa compostagem não usa minhocas, pelo menos em um primeiro momento (elas aparecem em uma fase posterior, quando a composteira entra em descanso). Quem decompõe o material orgânico são os microorganismos que agem nas condições ideais de temperatura e umidade. 

Henrique usou bambu para fazer a estrutura para ter uma estética mais bonita e conquistar e atrair a vizinhança a participar. Afinal, a ideia da composteira comunitária é ser usada por todos. 

O fundo foi forrado com galhos e folhas secas, o que permite a entrada de ar pela parte de baixo. O resíduo é colocado sobre essa estrutura e SEMPRE coberto com matéria seca. 

“O maior trabalho é justamente reunir a matéria seca. É uma parte fundamental do manejo para equilibrar a composteira e evitar cheiro ruim, gases e vetores”, explica. 

Todos os sábados, Henrique abre a composteira às 10h para que as pessoas possam depositar seus resíduos. Às 14h ela é fechada. Qualquer um pode levar os resíduos domésticos. Há placas explicando como proceder e o grupo também tira dúvidas pelo Instagram. 

O manejo inclui uma checagem semanal da composteira em uso e, a cada 15 dias, da leira que está em descanso porque já atingiu o seu limite. É preciso verificar se o resíduo não está compactando, se a temperatura está adequada, se não está seca demais etc. 

“É super tranquilo e não dá trabalho. Mas temos sempre que fazer essa manutenção para não atrair nenhum bicho”, explica. 

Há um mês e meio, foram retirados 350 quilos de composto, o que Henrique estima ser resultado da compostagem de quase 1 tonelada de resíduos depositados ali durante um ano. Diante da realidade paulista de mais de 3 milhões de toneladas de lixo  comum produzidos por ano, é uma porção pequena, mas já é alguma coisa. 

“Já é algo que deixou de ser mandado para o aterro. Mas tem também um caráter de educação ambiental. Temos o caso de uma menina que passou pela praça, conheceu a composteira, foi se aprofundar no tema e mudou até a forma de consumir por causa disso ”.

Essa é a Ju, que se interessou por compostagem e sustentabilidade depois de conhecer o projeto Nossa Senhora da Composteira. Clica aqui pra ler o depoimento dela!

Uma forma de fortalecer o movimento é a articulação em rede e, por isso, junto com outras pessoas Henrique está mapeando iniciativas de compostagem comunitária na cidade. 

“Acho esse aspecto comunitário de educação ambiental muito importante. Por isso queremos que mais pessoas cheguem, participem e se informem”.

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