Um jardim de chuva é um espaço permeável, que funciona como uma grande esponja de água e ajuda a melhorar a relação das cidades com a água da chuva.

Eles são construídos em um nível mais baixo que o da rua, para que a água que escorre pelo asfalto possa penetrar e ocupar o espaço. Para que esse escoamento aconteça, são criadas algumas entradas nas guias que cercam os espaços.

Rotatória transformada em Jardim de Chuva no bairro do Tatuapé. Foto: Maisa Infante

A terra é preparada de forma que fique super permeável e a água possa se infiltrar lentamente, mantendo a umidade do solo, alimentando o lençol freático e voltando para a rua mais limpa e em menor quantidade.

Assim, os jardins de chuva conseguem frear a velocidade da água e fazer com que os rios não recebam essa carga toda de uma vez.

Plantas nativas, capazes de sobreviver em situações extremas – com muita água ou secura total (afinal, não chove o ano todo) – cobrem os canteiros e ajudam a trazer biodiversidade para a cidade.

Em São Paulo, esses jardins já existem em diversos pontos, muitos deles construídos pelo paisagista Nik Sabey,  um grande disseminador dessa tecnologia. 

Nik conta que ficou extasiado quando conheceu a técnica e começou a incluir esse tipo de inteligência nos projetos – voluntários ou remunerados – sempre que possível. “Eu estava em um evento quando alguém trouxe essa ideia dos jardins de chuva e achei genial. O plantio de árvores com a inteligência do jardim de chuva é muito mais eficaz. Foi quando virou essa chave e, agora, em todo projeto eu tento incorporar o jardim de chuva no cenário”.

Na Vila Jataí, bairro na região da Vila Madalena, o jardim de chuva nasceu por iniciativa de moradores engajados em transformar o lugar em um espaço sustentável e ajudar a preservar as nascentes que correm por baixo do asfalto. Eles construíram um dos primeiros jardins de chuva da cidade, em 2016, em parceria com a subprefeitura, um trabalho que serviu de exemplo para muitas pessoas que queriam entender e aprender um pouco mais sobre a técnica. 

Construção de um Jardim de Chuva na Vila Jataí. Foto: Divulgação

E no ano passado, a prefeitura de São Paulo construiu dezenas jardins na região central da cidade: um na Travessa Grassi, na Sé; dois na Rua Antônio de Sá, no Glicério; quatro na Avenida 23 de Maio X Praça da Bandeira, na Bela Vista; e 11 no eixo da Rua Major Natanael, no Pacaembu.

Qual a vantagem?

O Jardim de Chuva é uma tecnologia que pode ajudar a reduzir os impactos de enchentes. Mas ele não consegue fazer isso sozinho, ainda mais em uma cidade como São Paulo.

Porém, ao lado de outras ações, como a ampliação das áreas verdes, dos parques lineares nas margens dos rios e da captação de água de chuva em condomínios, comércios e indústrias, eles podem sim ajudar a mitigar esse problema.

Um jardim de chuva pode cumprir basicamente duas funções:

  •  absorver a água da chuva e fazer com que menos água corra diretamente para o rio; 
  • reter essa água por um tempo maior, retardando o escoamento e contribuindo para que os rios tenham capacidade de receber toda a água. 

Nik lembra que, em São Paulo, os jardins podem ajudar a amenizar o problema da água que os prédios soltam nas ruas e vão, literalmente, para o ralo. “Isso acontece porque os prédios cavam para fazer o subsolo, chegam ao lençol freático e a água acaba minando. Para não ter um alagamento, ela é bombeada para a rua. Em locais onde isso acontece, o jardim de chuva vai se beneficiar dessa água mesmo nos períodos de seca”.

A história

A ideia de transformar os canteiros em espaços permeáveis, preparados para receber a água da chuva começou com Zephaniah Phiri Maseko, morador do Zimbábue. Ele precisava alimentar a família e não tinha dinheiro nem trabalho, apenas um terreno. Foi observando o caminho que a água fazia nas suas terras que ele criou um jeito de captá-la e aproveitá-la de forma inteligente para ter alimento o ano todo. Por toda sua terra Phiri fez com que a água da chuva descesse com menor velocidade, apenas com a ajuda da força da gravidade, e fosse absorvida pela vegetação. Assim, conseguiu plantar e colher para ter alimento o ano todo.

O permacultor americano Brad Lancaster foi conhecer de perto essa história e levou a ideia para Tucson, no deserto do Arizona. Ele começou a aplicar os conceitos na sua casa, onde a paisagem se modificou, as inundações que aconteciam na época das chuvas acabaram e houve uma economia de água usada na irrigação do jardim. O negócio inspirou os outros moradores do bairro, saiu detrás dos portões da casa de Brad e acabou até virando uma política pública. O bairro ficou mais verde, mais seguro (porque as pessoas saiam mais de casa), mais fresco e mais bonito.

Pois é, os jardins captadores de água transformaram um bairro nos Estados Unidos. Será que podem transformar a nossa cidade?

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