22 de maio é considerado o  Dia Internacional da Biodiversidade. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992, com o intuito de conscientizar a população mundial sobre a importância da diversidade biológica e preservação da biodiversidade em todos os ecossistemas.

Mas como essa biodiversidade se relaciona com a cidade de São Paulo? Aliás, será que existe biodiversidade na cidade onde 11 milhões de pessoas dividem o espaço com asfalto, carros, ônibus, shoppings, parques e prédios? 

Eu convidei o biólogo Anderson Santos, fundador e professor da Escola de Botânica, pra conversar comigo sobre esse tema. Ele se debruça bastante sobre as relações entre os “urbanóides’ e a natureza. Tem até um curso na escola para falar sobre essas relações: Viver e aprender com o mundo natural, que terá novas turmas a partir  de agosto. 

O biólogo Anderson Santos, da Escola de Botânica, é um estudioso das relações entre a cidade e a natureza. Foto: Dani Sandrini

O que é biodiversidade e onde ela está em São Paulo?

Pra começar a conversa, é importante entender o que é biodiversidade, palavra que ganhou atenção nos últimos anos juntamente com os temas ambientais e da emergência climática. 

“Biodiversidade é a diversidade de vida. É um termo sempre aplicado a um espaço geográfico, independente do tamanho: um jardim ou o Planeta”, explica Anderson.

E, sim, São Paulo tem biodiversidade. A cidade, inclusive, está dentro do bioma da Mata Atlântica, do qual só restam 12% no País e, que, pasmem, continua sendo o mais diverso do Brasil, mais até do que a Amazônia. 

O problema é que nós não enxergamos essa biodiversidade, seja porque estamos em pontos inóspitos da cidade ou porque não prestamos atenção .

A natureza urbana permite nos conectarmos à natureza. Mas é preciso estar atento! Foto: Maisa Infante

O último inventário de biodiversidade divulgado pela prefeitura de São Paulo, em 2016, aponta 1.113 espécies de animais catalogados, incluindo 458 espécies de aves e 331 espécies de insetos. Com relação à flora, o inventário catalogou 4.768 espécies de plantas. 

O levantamento foi feito em praticamente todos os parques da cidade e também em algumas outras áreas como o Cemitério da Vila Formosa, a Avenida Beto Ghelfi e a Cohab Juscelino, em Guaianases. 

Mas a biodiversidade não está só nesses grandes lugares. Se você tem plantas na varanda ou até uma árvore perto da sua casa, ela pode estar mais perto do que você pensa. 

Anderson conta que na árvore em frente ao prédio em que mora, no centro da cidade, ele já observou 12 espécies de aves, 7 de abelhas, morcegos, além de outros tipos de insetos, borboletas e mariposas. 

“A cidade de São paulo, por estar próxima da Serra do Mar e estar cercada por algumas áreas verdes e fragmentos de florestas na região metropolitana, tem uma rica biodiversidade comparada a outras áreas urbanas”. 

Qual a importância da biodiversidade no contexto urbano?

Um ambiente mais diverso é mais saudável, mais forte e mais resiliente, ou seja, consegue se adaptar melhor às mudanças. E a gente já aprendeu o quanto essa capacidade de adaptação é importante.

“Quando um ser vivo compartilha um espaço com poucas formas de vida, fica potencialmente mais frágil porque existe uma relação entre os seres vivos. A gente não percebe, mas existe. Se sumissem os polinizadores, por exemplo, os parques seriam os primeiros a desaparecer, e isso geraria uma consequência pro urbanoide”. 

Posso ter biodiversidade na minha casa?

Ninguém vai salvar o planeta com um jardim na varanda, mesmo que ele seja o mais biodiverso do mundo. Mas certamente vai contribuir com a sua própria educação ambiental e também de outras pessoas da sua convivência. 

Porque é somente ao manter contato com a biodiversidade e vê-la de perto que entendemos como funciona e a sua importância. E, de forma geral, os “urbanóides” são bem desconectados disso. 

Anderson acredita que a forma como a vida se configurou na capital a partir dos anos 1970, quando a verticalização começou a acelerar, ajudou a desconectar as pessoas do mundo natural. E a consequência disso é a gente não enxergar mais a biodiversidade. 

“Até a década de 70 e 80, a maioria das pessoas dos centros urbanos viviam em casa com quintal. Elas viam o sol, a lua, percebiam a hora da chuva, sentiam o vento, tinham árvores e plantas no quintal. A convivência diária dava um ritmo de vida que era pautado em paciência e espera”.

Este é o meu quintal, lugar onde mantenho conexão diária com a natureza. Foto: Maisa Infante

Quando começaram a se mudar para apartamentos, ou mesmo a transformar seus quintais em garagem ou área coberta e cercada, a vida doméstica se tornou mais asséptica e o contato com o mundo natural foi-se embora.  

“Quando isso acontece, você não percebe que tem passarinho, não percebe que choveu e perde a noção de tempo. Por que as pessoas querem tanto que um dia dure mais do que 24 horas? porque elas não conseguem esperar”. 

Mas, nos últimos anos, surgiu no mundo uma tendência chamada de Urban Jungle, que significa selva urbana e tem a ver com encher a casa de plantas, algo que nossos avós já faziam. 

Mesmo que tenha a ver com uma moda, é uma “tendência” que pode criar novas formas de conviver com a biodiversidade. É também um jeito de retomar esse modo de vida ancestral, mais conectado com a natureza. Afinal, pra cuidar das suas plantas, vai ser preciso esperar, entender, aprender o tempo da natureza, além de observar a vida que surge junto com essa “selva”. Aranhas, mosquitos, matinhos, tudo isso vai aparecer. E você vai ter que aprender a lidar com tais elementos. E a convivência é o primeiro passo para a conscientização.

Anderson alerta que vale a pena privilegiar, na sua Urban Jungle ou no seu quintal, as plantas nativas, que tem uma importância enorme na conservação da biodiversidade. 

“É o grande papel das plantas nativas: alimentar todos os outros seres vivos que não são os humanos dentro de uma área urbana. A gente esquece disso, mas eles são fundamentais para essa história”.

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