Vamos falar sobre PANC?

A sigla PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais) tem aparecido com mais frequência na mídia, nas feiras, nas hortas e nas conversas, mas ainda é algo distante da vida cotidiana de muitas pessoas. Eu mesma ainda não consumo muitas PANC apesar de acompanhar o crescimento de algumas espécies no meu quintal. Leio, estudo, observo, aprendi a identificar algumas, mas colocar no dia a dia mesmo, ainda não rolou.

PANC são aquelas plantas – ou partes de plantas – que podemos consumir (seja in natura ou em preparos culinários) mas não consumimos porque desconhecemos e nem sabemos que são comestíveis. Partes de plantas que a gente conhece mas não costumamos consumir, como por exemplo o coração da bananeira, também são consideradas PANC.

Coração da bananeira dando sopa em um rua de São Paulo.

Não raro, o que é PANC em São Paulo, por exemplo, não é PANC em outra região. Afinal, existe uma regionalização dos hábitos alimentares, ainda mais em um País tão grande quanto o Brasil. A ora pro nobis é um exemplo. É comum em quintais e hortas de Minas Gerais, mas ainda é bem desconhecida em São Paulo.

Existe mato?

Muitas das PANC são aquelas plantas que chamamos de mato e nascem espontaneamente nos quintais, vasos, calçadas e até nas frestas de muros. Trevo, dente de leão, serralha, beldroega e major gomes são alguns exemplos. Normalmente, o que fazemos ao nos depararmos com essas plantas é arrancar sem dó, pela raiz, e jogar fora. Afinal, mato não serve pra nada, né?

Pois é, mas se pararmos pra pensar, é possível ter outro olhar sobre estes matos, ou ervas daninhas, como é comum dizermos. Como muito bem explica o Guilherme Ranieri neste post do blog Matos de Comer, o termo erva daninha é um juízo de valor que nós, humanos, fazemos com base no que esperamos de uma plantação ou jardim.

Na natureza, cada planta tem sua função e não tem essa de “erva daninha”. Muitas das PANC que consideramos mato são plantas bioindicadoras da qualidade do solo. Quem souber olhar para elas com olhos generosos, pode conseguir saber o que falta ou o que está em excesso no solo. A azedinha, por exemplo, sinaliza uma terra argilosa, com Ph baixo; já o Caruru, indica que o terreno está com excesso de nitrogênio livre; e o dente de leão indica solo fértil.

Tansagem no meu quintal. Nunca comi, mas não consigo arrancar!

Por experiência própria, posso dizer que ao aprender a identificar as PANC fica mais difícil sair arrancando aleatoriamente os matos por aí. Vivo isso diariamente no meu jardim, onde nascem crepe do japão, tansagem, trevos, serralha e algumas coisas que ainda não sei o que são, mas acredito que entrem no rol das PANC. Ainda não consegui cuidar do solo a partir do que estas plantas indicam, mas confio que isso é um processo e que, aos poucos, vou evoluir nos cuidados e no conhecimento sobre esse universo.

Todo mato é comestível?

NÃO. O universo botânico não é feito somente de plantas alimentícias. Porém, podem acreditar que cada planta tem sua função na natureza. Lembrem-se de que existe uma inteligência milenar por trás da natureza, pautada na sobrevivência das espécies e adaptações às condições ambientais. Então, elas não aparecem à toa.

Mas por que, afinal, falar sobre PANC?

Segundo os autores Valdely Kinupp e Harri Lorenzi no livro Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil, 90% do alimento mundial vêm de apenas 20 espécies. E sabem quantas espécies existem no mundo? Milhares. Ainda segundo estes autores, não existe uma lista oficial de todas as plantas comestíveis do mundo, mas uma das mais completas enumera cerca de 12.500 espécies potencialmente alimentícias. É muita coisa, né? E a gente continua comendo o mesmo de sempre: alface, tomate, banana, mamão, abobrinha, batata etc.

A ideia por trás da difusão das PANC é justamente a diversidade. Identificar e aprender a usar PANC é uma forma de diversificar a alimentação. É, também, uma forma de estimular a produção agrícola destes alimentos e fomentar o trabalho da agricultura familiar.

Eu vejo que esse universo PANC está, hoje, em duas frentes. Uma é a gastronomia mais ‘gourmetizada’, com as PANC entrando em receitas de grandes chefs, algumas sendo vendidas em feiras como se fossem pequenas joias a preços altos. Outra é a PANC como uma forma de complementar a renda de agricultores familiares, que podem cultivá-las sem depender das sementes de grandes empresas, e principalmente como uma alternativa de comida barata para quem precisa. Afinal, muitas PANC são de fácil cultivo e as pessoas podem ter em casa para consumo próprio.

Como eu aprendo a identificar e a comer PANC?

Essa é uma missão de longo prazo. E a observação é fundamental para adentrar esse universo. É preciso olhar, ler, estudar, fotografar, comparar fotos. Nenhum curso vai te tornar um especialista em PANC. É preciso, então, viver esse universo. E graças à tecnologia e a maior divulgação das PANC, é possível encontrar bastante informação por aí. Vou deixar aqui as minhas dicas:

  • Tenha o livro Plantas Alimentícias não Convencionais do Brasil, do Valdely Kinupp e Harri Lorenzi. Nele, estão listadas com fotos, nome científico, nomes populares e até receitas de mais de 300 espécies que ocorrem no Brasil. É um bom guia desse universo.
  • Acompanhe a Carla Soares, do blog Outra Cozinha. Ela pesquisa, cultiva em casa e cozinha com PANC. Sempre tem dicas, receitas e ensaios sobre o tema. Nesse post, ela dá suas próprias dicas – super preciosas – para quem quer identificar PANC.
  • O blog Matos de Comer é fundamental. Como o próprio nome diz, trata exatamente do tema. E o Guilherme Ranieri ainda organizou um índice com os posts sobre as PANC.
Encontrei essa planta no meu quintal, mas ainda não consegui identificar. Alguém aí sabe o que é?
  • Frequente algumas hortas comunitárias de São Paulo, como a Horta das Flores, na Mooca. Lá existe um canteiro de PANC que é uma vitrine para ver de perto e aprender sobre esse universo.
  • Vá dar um passeio pelo viveiro Sabor de Fazenda, na Zona Norte da cidade. Lá são comercializadas mudas de PANC e é um ótimo lugar para ver de perto estas plantas, observá-las em detalhes e conhecer mais a fundo. Certeza que se sai de lá sabendo reconhecer algumas espécies nas ruas.

No mais, adentrar esse universo de identificação de plantas é divertido. Pra mim, tem sido um caminho sem volta. Me conta como vai ser para você?

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